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David Goldman  Click to Enlarge
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Revista Piauí
Revista Piauí
Novembro 2008

Questões familiares
A Busca do filho
Dorrit Harazim
http://www.revistapiaui.com.br/edicao_26

Em cortes dos Estados Unidos e do Brasil, a disputa por um garoto cuja mãe morreu

m tese, a violação de uma ordem judicial é crime, ainda mais quando se trata do direito de visitação. O padrasto do menino com certeza se calçou em algum instrumento legal para impedir que Sean visse o pai. Afinal, os tempos do comendador Breves são outros. Para Goldman, contudo, “eles” podiam e tinham tudo, a começar pelo seu filho. Esperaria mais uma semana, enfurnado no seu quarto de hotel, só para não correr o risco de estar ausente quando fosse marcada a data da próxima visita. Previsivelmente, ela também não aconteceu. A única diferença é que seu advogado pôde informá-lo da negativa três dias antes. Dessa vez, exigia-se uma avaliação psicológica prévia do menino.

Em compensação, Goldman recebeu por duas vezes visitas de oficiais de Justiça. Dos que queriam lhe entregar uma intimação às nove horas da noite, achou melhor declinar o convite, pedindo que retornassem de dia. Um dos documentos era uma notificação da 3ª Promotoria de Justiça da Infância e Juventude, para que prestasse declarações sobre Sean. O outro era um mandado de citação e intimação, de autoria de Paulo Lins e Silva e João Paulo Lins e Silva, para responder sobre uma suposta campanha de difamação e linchamento moral que estaria maculando a trajetória de quarenta anos dos autores da ação.

Também demandavam que Goldman enviasse, no prazo de 48 horas, solicitação por escrito a todos os meios de comunicação com conteúdo considerado ofensivo aos autores, inclusive sites da internet, para que cessassem de fazê-lo. Mais: o americano deveria solicitar a todos os meios de comunicação culposos que divulgassem uma nota de retratação, esclarecendo a inexistência de seqüestro do menor Sean e a existência de uma decião judicial brasileira a respeito da guarda provisória do menor.

Dois dias depois, acompanhado de outro advogado, Goldman se apresentou no Ministério Público da rua Rodrigo Silva, próximo do metrô da Carioca. “Quando me foi lido que eu fôra conivente com o aluguel de um helicóptero que sobrevoara a residência do meu filho, até os oficiais de Justiça presentes na sala riram, de tão absurdo”, contou na volta.

Helicóptero David Goldman ainda não tem. Emprego com carteira assinada e horários fixos, também não. Ele é sócio de uma empresa de pesca turística, cuja freguesia desembolsa 600 dólares por uma expedição de seis horas. “Apesar da crise, ainda tem muito corretor de Wall Street que perdeu dinheiro, mas não o bastante para abrir mão de tudo”, explicou. Sua casa de Tinton Falls, situada num dos distritos mais afluentes de Nova Jersey, ainda está sob hipoteca.

Durante a vida conjugal com Bruna, era ela quem tinha uma rotina profissional mais regular – dava aulas de italiano para ginasianos da escola St. John Vieri – e um plano médico mais vantajoso para a família do que o do marido.

Goldman não faz segredo de que quatro anos de processos judiciais não estavam previstos em seu orçamento de americano de classe média. Só nos doze primeiros meses, desde que entrou na Justiça para reaver o filho, desembolsou 94 387,62 dólares em honorários para sua advogada americana – ela cobra 400 dólares a hora. Exceto esta última vinda ao Rio, toda ela custeada pelo programa noticioso Dateline, da NBC, que está preparando uma reportagem de uma hora sobre o caso Sean, as idas e vindas de Goldman ao Brasil também lhe pesam no bolso. Em outras condições, talvez tivesse evitado fazer um acordo financeiro perante a Corte de Nova Jersey (FD-13-395-05c), pelo qual recebeu a soma de 150 mil dólares dos ex-sogros, os Bianchi, em troca da retirada de seus nomes como co-réus no processo que moveu contra Bruna.

Poucas horas antes de embarcar de volta para casa no vôo CO 92 com escala em São Paulo, Goldman contou que, na noite anterior, antes de jantar, sentara-se no bar do hotel. Fora logo abordado por um texano falante e animado, que lhe contou mil e uma histórias. Escapuliu logo que pôde, com receio de que o texano lhe perguntasse o que estava fazendo no Rio.

“Como explicar a minha vinda ao Brasil em uma frase?”, disse. “É toda uma vida que está compactada nesta viagem. Eu até aceito que o novo marido de Bruna tenha se apegado de amor por Sean, mas o filho é meu, me foi arrancado. Agora que o padrasto se tornou pai de uma menina, ele deveria entender melhor o tamanho do horror.”

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